Há 20 anos a equivalência entre real e dólar expunha um referencial de valorização da moeda brasileira frente a norte-americana, resultado de um plano econômico que travou um ciclo inflacionário de anos no Brasil e estipulou uma ‘ancoragem cambial’ que resistiu até a crises internacionais na Ásia e no México. Nesse período, Gregório Peralta não tinha montado sua empresa de prestação de serviços em instalações elétricas ainda, apenas namorava a possibilidade de ir ao Paraguai trabalhar, estimulado pelo pai, de origem no País vizinho e morador de Porto Murtinho. A carreira surgiu e curiosamente ele foi chamado para trabalhar em Assunção, onde teve a experiência mais rentável de sua vida profissional.

“Já tinha ouvido falar, mas como havia me voltado apenas para o mercado daqui nem cogitava. Até que então veio o primeiro convite em 2014, para trabalhar na reforma de uma igreja lá e vi que eles realmente pagam muito bem e valorizam a mão-de-obra brasileira. Dizem até que muitos dos serviços que desenvolvemos aqui são raros lá, assim como o profissionalismo dos brasileiros”, diz Gregório Peralta, hoje com 52 anos, que viu no Paraguai uma diferença fundamental no seu ramo.

Enquanto no Brasil, mais precisamente em Campo Grande, a cidade onde mora e mais atua com sua empresa, a forte concorrência determina margens cada vez mais espremidas de ganho, no lado alvi-rubro-celeste a barganha nos orçamentos é quase que inexistente segundo o eletricista. Conta Gregório, que os paraguaios indicam mais os seus serviços quando gostam, e não costumam questionar a projeção de custos do profissional. Para melhorar pagam em dólar e por semana.

“Estimo que a quantia paga a mim na minha experiência em cidades paraguaias foi algo como o triplo do que eu receberia no Brasil. Diferente do que muita gente me falou não ganhei em nenhum momento com atrasos. Os preços de compras básicas lá são praticamente a mesma coisa daqui, a infraestrutura de Assunção, por exemplo não perde para a de Campo Grande, mas no quesito sistema de saúde deixam a desejar”, relata Gregório que interrompeu a sua sequência de ganhos em dólar após um acidente de trabalho no Paraguai.

Sem a possibilidade de tratamento adequado lá, ele preferiu voltar ao Brasil, onde começou depois de alguns meses, remédios e muita fisioterapia a reverter o quadro clínico de dor e limitação de movimento no ombro e braço. Quando voltou à Capital de Mato Grosso do Sul, Seu Gregório sequer conseguia trocar uma lâmpada ou dormir na própria cama, tendo que recorrer durante muito tempo ao sofá apenas.

“No Brasil temos uma legislação trabalhista muito sofisticada que prevê um considerado amparo ao empregado, que facilita a ele estando aqui acionar os seus Direitos e uma cobertura. Em outros países haverá outras realidades jurídicas e é muito importante consultar sobre isso antes de firmar qualquer contrato com empresas de lá. Mesmo que não seja o mesmo rendimento financeiro, a formalização do vínculo é de suma importância e algo que muitas vezes só se percebe o valor quando acontece alguma fatalidade ou situação ruim”, esclarece o advogado trabalhista Thiago José Wanderley.

Bola de Cristal

Mesmo o acidente e a dolorosa recuperação de saúde não foram capazes de desencorajar Seu Gregório a um retorno ao ‘eldorado paraguaio’ possivelmente neste ano, ou no mais tardar em 2016. O bom trabalho demonstrado na recente passagem o garantiu telefonemas regulares de clientes do país vizinho tentando contratá-lo, resultado de indicações que continuam mesmo após mais de seis meses da sua última visita. Na ocasião o dólar era cotado frente ao real em R$ 2,408.

Se analistas de maior otimismo falam em tom conservador da consistência da atual política econômica brasileira, os economistas mais adeptos de um cenário catastrófico no segundo semestre chegam a apontar o dólar a R$ 4,00 na cotação cambial. Um exemplo desse pessimismo é a projeção da Empiricus Research, pequeno instituto independente de pesquisa, que no passado conseguiu por sua atuação na internet e redes sociais irritar o PT com seus prognósticos.

Baseados em uma tendência de valorização do dólar, a Empiricus Research aponta desde o mês de junho 2013 que a moeda norte-americana após a realização da Copa do Mundo no Brasil, e já no período anterior às Olimpíadas do Rio de Janeiro, irá chegar aos R$ 4,00 na cotação cambial. Taxa de juros futuros em ascendência, habilidade ineficiente do Governo em fazer um Ajuste Fiscal com desoneração tributária, que poderia ajudar a manter os níveis de consumo capazes de estimular o crescimento econômico estável são alguns dos argumentos do instituto de pesquisa econômica que acredita no caos petista na administração federal.

Nessa perspectiva o Paraguai de Gregório, mantendo os pagamentos a brasileiros em dólar pode se tornar um atrativo para captação de mão-de-obra e até de investidores tupiniquins, já que no país vizinho a carga tributária é menor, e os incentivos fiscais podem ser mais generosos a empresas que busquem atendam o Mercado Interno.

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